Uma história de quatro gerações, guardada pela Gardunha

Há quase 90 anos, a Quinta do Anjo da Guarda mantém viva a ligação da família Sá Pereira à Serra da Gardunha e a Alpedrinha, a vila que José Saramago descreveu como “secreta”.

“Não faltam povoações escondidas, mas esta Alpedrinha é secreta”, escreveu José Saramago em Viagem a Portugal. Antes dele, a Marquesa de Alorna encontrara na beleza natural, nas casas senhoriais e na paisagem da montanha razões para chamar à vila “Sintra das Beiras”.

Alpedrinha não se revela ao primeiro olhar. Agarrada à encosta sul da Serra da Gardunha, no concelho do Fundão, é uma terra de granito, água e horizontes abertos sobre a planície. É nesta paisagem que começa a história da Quinta do Anjo da Guarda.

Em 1937, o Doutor Francisco de Sá Pereira (imagem à direita) adquiriu a propriedade. Médico estabelecido em Alpedrinha desde 1929, imaginou para aquele lugar algo muito maior do que uma quinta familiar. Queria criar um espaço onde o lazer, o desporto e a vida da comunidade pudessem encontrar-se.

Por volta de 1939–1940, contratou o arquiteto Francisco Keil do Amaral para pensar as primeiras estruturas integradas na propriedade. A ligação do seu filho Luís António ao hóquei em patins esteve na origem da construção de um ringue, que receberia o seu nome, e do apoio à equipa de hóquei de Alpedrinha.

O projeto avançou com recursos próprios, sem subsídios públicos, numa época em que muitos o consideravam uma “fantasia”. Outros chamaram-lhe “loucura”, “ruína” ou “carolice”. Francisco de Sá Pereira respondeu com trabalho e uma confiança persistente naquilo que estava a construir. Escolheu para a obra uma divisa tão exigente quanto a sua ambição: “Morte ou Glória”.

O núcleo desta visão incluía um parque recreativo, espaços dedicados ao desporto e uma piscina com dimensões pouco comuns para a época. Inaugurada em 1957, a Piscina de Alpedrinha tem 33 metros de comprimento e é alimentada por água proveniente de nascentes da Gardunha. Tornou-se uma referência na Beira Baixa e continua, até hoje, a ser o ex-líbris da Quinta do Anjo da Guarda.

Em 1960, Francisco de Sá Pereira registou o que já tinha construído e aquilo que ainda projetava no livro A Quinta do Anjo da Guarda em Alpedrinha: A sua obra. O que é. O que poderá vir a ser. Mais do que descrever uma propriedade, o documento revela uma visão invulgarmente avançada para aquele tempo, feita de fé no projeto, esforço pessoal e compromisso com Alpedrinha.

A história prosseguiu com Luís António Sá Pereira, médico e filho do fundador. No final da década de 1990, a segunda geração iniciou uma nova fase de recuperação e melhoria da Quinta. Mais tarde, o Engenheiro Luís Miguel Sá Pereira, representante da terceira geração, aprofundou essa renovação e transformou a antiga vocação de lazer da propriedade num projeto turístico. Em novembro de 2019 nasceram, com este nome, as Casas de Alpedrinha, na Quinta do Anjo da Guarda

Com o empreendimento, a ligação à vila passou aumentou e passou também a estar presente no interior das casas. Cada uma possui hoje uma referência à história ou ao património de Alpedrinha, representada através de fotografias a preto e branco. O Palácio do Picadeiro, o Chafariz D. João V, a Capela do Espírito Santo e a Igreja Matriz estão entre os lugares homenageados. Assim, a memória da vila atravessa a Quinta e entra nas casas que recebem quem chega.

Em 2026, a história continua a ser escrita. André Sá Pereira começou a colaborar na área comercial do empreendimento e assumiu a responsabilidade pelas reservas.

Agora divide com seu pai, Luis Miguel, a missão de continuar a fazer da Quinta do Anjo da Guarda um lugar especial. Tornou-se o primeiro representante da quarta geração a participar diretamente no projeto iniciado por Francisco de Sá Pereira.

Quase nove décadas depois da aquisição da Quinta, a história permanece ligada à mesma família, à mesma vila e à Serra da Gardunha que a guarda.